16 dezembro 2012

Palácio Aljafería, Zaragoza, Espanha


Aljafería, em Zaragoza, capital da comunidade autônoma de Aragón, na metade do caminho entre Madri e Barcelona, é um palácio fortificado construído na segunda metade do século XI, na época de Al-Muqtadir (califa abássida entre 908 e 929, novamente, entre 929 e 932)  como residência dos reis Hudes, dinastia iniciada com Sulayman ibn Hud Al-MustainO Palácio de Aljafería foi declarado Patrimônio da Humanidade em 2001 pela UNESCO. 



A construção reflete o esplendor alcançado pelo reino Taifa de Saraqusta no momento de seu máximo apogeu político e cultural. O termo taifa, no contexto da história Ibérica, refere-se a um principado muçulmano independente, um emirado ou pequeno reino existente na Península Ibérica (o Al-Andalus) após o derrocamento do califa Hisham III (da dinastia omíadas) e a abolição do Califado de Córdoba em 1031.




O Califado foi a forma de governo islâmico que dominou a maior parte da Península Ibérica e do Norte da África com capital em Córdoba. O Califado sucedeu ao  Emirado Independente instaurado por Abderramão I em 756. O título de califa foi reclamado por Abderramão III a 16 de janeiro de 929, que já era reconhecido como emir de Córdoba. Todos os califas de Córdoba foram membros da dinastia omíada, a mesma que detinha o título de emir de Córdoba e governava praticamente o mesmo território desde 756. O Califado de Córdoba foi a época de máximo esplendor político, cultural e comercial de Al-Andalus (Península Ibérica). O Califado perdurou oficialmente até 1031, ano em que foi abolido, após um período de revoltas, fragmentando-se em múltiplos reinos conhecidos como Taifas.



Aljafería é o único exemplar conservado de um grande edifício da arquitetura islâmica espanhola da época das Taifas. Juntamente com a Mesquita-Catedral de Córdoba e La Alhambra, de Granada, esta já do século XIV, forma a tríade da arquitetura hispano-muçulmana, sendo excelentes exemplos para conhecer as realizações da arte taifa dessa época intermediária de reinos independentes anteriores à chegada dos almorávidas.


Mesquita Catedral de Córdoba
Mesquita-Catedral de Córdoba 

La Alhambra de Granada
La-Alhambra de Granada 

Depois da reconquista de Zaragoza em 1118 por Afonso I, o Guerreiro, Aljafería passou a ser residência dos reis cristãos de Aragão, passando a ser o principal foco difusor do mudéjar aragonês (A arte mudéjar não se constitui num estilo artístico unitário, apresentando características particulares em cada região, nesse sentido, destacam-se o mudéjar toledano, o leonês, o aragonês e o andaluz)


Teto sala do trono do Palácio Aljafería


Foi residência régia de Pedro IV, o Cerimonioso e posteriormente, na planta principal, uma reforma converteu estas estâncias em palácio dos reis Católicos em 1492. Em 1593 experimentou outra reforma que a converteria em fortaleza militar, primeiro segundo desenhos renascentistas (que hoje se podem observar no seu entorno, fosso e jardins) e mais tarde como aquartelamento de regimentos militares. Sofreu reformas contínuas, e grandes danos, sobretudo com os Sítios de Zaragoza da Guerra da Independência até que finalmente foi restaurada na segunda metade do século XX e atualmente acolhe as Cortes de Aragão.






Em sua origem a construção se fez extramuros da muralha romana, no plano de que seria o local onde os muçulmanos desenvolveriam seus exercícios militares conhecidos como "La Almozara". Com a expansão urbana através dos anos, o edifício terminou por ficar dentro da cidade. Possui apenas um pequeno entorno ajardinado que fica insulado pelas ruas que passam a poucos metros dali.


Aljafería

A edificação mais antiga da Aljafería é a chamada "Torre do Trovador", que recebeu este nome a partir do drama romântico de Antonio García Gutiérrez, El trovador, de 1836. Este drama foi convertido em ópera de Giuseppe Verdi, Il Trovatore, de 1853. Trata-se de uma torre defensiva, de planta quadrangular e cinco pisos, que data de finais do século IX, no período governado pelo primeiro Tuyibi, Muhammad Alanqar, que foi nomeado por Maomé I, emir independente do Emirado de Córdoba. A torre mantém vestígios da base dos grossos muros de aparelho de silhares de alabastro em sua parte inferior, e continuada com outros unidos por concreto simples de gesso e cal, cada vez mais finos à medida que ganham altura. O exterior não reflete a divisão interna em cinco pavimentos e aparece como um enorme prisma maciço apenas cortado por vãos falhados. O acesso ao interior era feito através de uma pequena porta em altura de modo que do solo somente se poderia acedê-la com uso de uma escada. Sua função inicial era, por estes indícios, eminentemente militar.


Torre do Trovador - Aljafería


O primeiro pavimento conserva a estrutura construtiva do século IX, que abriga duas naves e seis intervalos separados por dois pilares cruciformes dos quais partem arcos ferradura rebaixados. Conformam uma edificação equilibrada, que acolhe o teto ao modo das mesquitas califais e que podem ser usadas para banhos.




Arco Ferradura

O segundo piso repete o mesmo esquema, e se observam restos do feitio muçulmano do século XI nos ladrilhos, o que indica que este foi reconstruído possivelmente na época do palácio de Al-Muqtadir.
No terceiro pavimento, cuja estrutura também seria do século XI, com arcos também de ferradura, aparecem pinturas no teto com motivos geométricos da arte mudéjar, onde se podem ler os nomes de Enéas, Amor e Vênus, e que datam, possivelmente, do século XIV. Algo similar ocorre no aspecto dos dois últimos andares, de feitio mudéjar, e cuja construção se deve à edificação do palácio Pedro IV em anexo, e que está em comunicação com a Torre do Trovador por um corredor, configurando-se assim qual uma torre de mensagem. Os arcos desses andares já refletem a estrutura cristã, pois são arcos ligeiramente pontiagudos, e suportam tetos ao invés de abóbodas, e sim estruturas planas em madeira.
Sua função, nos séculos IX e X era a de torre de vigia e bastião defensivo. Estava rodeada por um fosso. Foi integrada depois pelos Banu Hud na construção do castelo-palácio da Aljaferia, constituindo-se numa das torres da trama defensiva do lado norte externo. A partir da conquista cristã, seguiu-se o uso como torre de mensagem e em 1486 converteu-se em prisão para a Inquisição espanhola. Como torre-prisão foi usada também nos séculos XVIII e XIX, como demonstram as numerosas inscrições feitas ali pelos encarcerados.



A construção do palácio foi ordenada por Al-Muqtadir ("O Poderoso"), segundo monarca da dinastia dos Banu Hud, como símbolo do poder alcançado pela  Taifa de Zaragoza na segunda metade do século XI. O rei em pessoa chamou ao seu palácio de "Qasr al-Surur" (Palácio da Alegria) e a sala do trono onde presidia as recepções e embaixadas de "Maylis al-Dahab" (Salão Dourado), como atestam os versos seguintes de sua própria autoria:
A disposição geral do conjunto do palácio adota o arquétipo dos castelos omídas do deserto da Síria e Jordânia da primeira metade do século VIII.  



Na Aljafería se rende homenagem a este modelo de castelo-palácio, cuja zona nobre está situada no segmento central de sua planta quadrada, se bem que o alinhamento dos lados dessa planta seja irregular. O retângulo central que acolhe as dependências palacianas, organizado em torno de um pátio com reservatórios frente aos pórticos norte e sul ao qual confluem as estâncias e salões reais.



Nos extremos norte e sul situam-se os pórticos e dependências de habitação, e no caso da Aljafería, o mais importante destes setores é o norte, que originalmente estava dotado de um segundo andar e possuía maior profundidade, além de ser precedido por uma testada de colunas aberta e profusamente decorada, que se estendia em dois braços através de dois pavilhões em seus flancos e que servia de pórtico teatral ao salão do trono (o "salão dourado" dos versos de Al-Muqtadir) situado ao fundo. Com era produzido um jogo de alturas e diversos volumes cúbicos que começavam pelos corredores perpendiculares dos extremos, ressaltando com a presença da altura do segundo piso e finalizando com a torre do Trovador, que oferecia seu volume ao fundo à vista do espectador situado no pátio. Todo ele, refletido pelo algibe (cisterna), realçava a ala real, o que se corroborava com a presença no extremo oriental da testada norte de uma pequena mesquita privada, com mihrab.



Mihrab

No centro do muro norte do interior do Salão Dourado havia um arco cego – onde ficava o rei – em cuja rótula se dispunha uma trama geométrica bem tradicional imitando a gelosia da fachada do mihrab da Mesquita de Córdoba, edifício que se procurava copiar. Deste modo, desde o pátio, aparecia semi-oculto pelas tramas de colunas tanto a arcaria de acesso ao Salão Dourado, como as do pórtico imediato, que davam um aspecto de gelosia, uma ilusão de profundidade, que causava admiração ao emprestava esplendor à figura do monarca.
Herança da arquitetura árabe que se popularizou na Península Ibérica, gelosias e rótulas eram painéis formados por treliças de madeira para vedar vãos de janelas, muitas vezes convertendo-se em verdadeiras gaiolas, fechadas de madeira por todos os lados, cujo objetivo confesso era aprisionar ou proteger (depende de quem conta) as mulheres da casa. Além de permitirem a passagem de ar fresco, também possibilitavam que as pobres mulheres encarceradas observassem a rua sem serem observadas.


gelosia
Gelosia

Com o tempo, as gelosias popularizaram-se tanto na cultura e na língua que passaram a designar o próprio ciúme: “gelosia”, em italiano, “jalousie” em francês e “jealousy” em inglês, entre outras. Uma novela como “El Celoso Extremeño”, de Cervantes, sobre um homem ciumento obcecado em impedir sua mulher de traí-lo a todo custo, é excelente retrato da cultura que popularizou as gelosias. Enquanto isso, no Brasil Colônia, era comum os visitantes estrangeiros se queixarem de nunca ver mulheres brancas, eternamente escondidas atrás de suas rótulas e gelosias, saindo apenas para as missas dominicais, e mesmo assim protegidas por véus e mantilhas.
Por isso, para os cariocas de 1809, empolgados com o sopro europeizante e modernizador trazido pela corte de D.João VI, gelosias e rótulas eram um símbolo concreto de tudo o que havia de mais retrógrado e bárbaro na cultura ibérica. O decreto de 1809 (Um dos primeiros editais do Intendente Geral da recém-criada Polícia do Rio de Janeiro foi proibir as rótulas e gelosias nos sobrados da cidade, em 11 de junho de 1809. Para Joaquim Manoel de Macedo, escrevendo suas “Memórias da Rua do Ouvidor” em 1878, gelosias e rótulas eram costume “quase bárbaro, de raiz mourisca”, e ele lamenta que muitas casas tenham “resistido à reforma decretada pela civilização”.), ao suprimir um elemento arquitetônico que fazia de cada casa uma fortaleza e uma prisão, era uma tentativa estatal de promover o espaço público em detrimento do privado. Macedo, setenta anos depois, mas ainda herdeiro dessa mesma tradição comemora:
“As rótulas e gelosias não eram cadeias confessas, positivas, mas eram pelo aspecto e pelo seu destino grandes gaiolas, onde os pais e maridos zelavam sonegadas à sociedade as filhas e as esposas. A higiene, a arquitetura, o embelezamento da cidade exigiam a destruição das malignas e feias gaiolas. E a Rua do Ouvidor devia ser pronta, como foi, em dar cumprimento ao edital de Paulo Fernandes, porque rótulas e gelosias destinadas a esconder à força o belo sexo deviam ser imediatamente banidas da rua que não tarde tinha de tornar-se por excelência de exposição diária de elegantes e honestíssimas senhoras.”



Para recordar o aspecto do palácio em fins do século XI tem-se que imaginar que todos os relevos de vegetais, geométricos e epigráficos estavam policromados em tons em que predominava o vermelho e o azul para os fundos, e o dourado para os relevos que, junto com os rodapés de mármore branco, davam ao conjunto um aspecto de grande magnificência.





As diversas alterações sofridas pela Aljafería fizeram desaparecer desta disposição do século XI grande parte dos estuques que compunham a decoração e, com a construção do palácio dos Reis Católicos em 1492 (todo o segundo pavimento), desapareceram os arremates dos arcos taifais. Na restauração atual se observam em cores mais escuras os atauriques (palavra árabe-hispânica que designa o tipo de ornamentação árabe em forma de vegetais, e que eram bastante utilizados como elemento decorativo de janelas, biombos, divisórias etc) originais e em acabamento branco e liso a reconstrução em gesso da decoração dos arcos, cuja estrutura, esta sim, permaneceu imutável.



A decoração das paredes do Salão Dourado desapareceu em sua maior parte, ainda que se tenham conservado restos de seus ornatos no Museu de Zaragoza e no Museu Arqueológico Nacional de Madri. Francisco Iñíguez iniciou sua restauração, repondo as decorações que existiam em seus locais de origem e extraindo lances completos das arcadas do pórtico sul.



Estas foram as funções e aspectos do palácio Hudi do século XI. A seguir se detalham as partes mais importantes do edifício tal como se encontra na atualidade.

Para informações antes de sua visita, veja o site:
http://www.spain.info/pt_BR/conoce/monumentos/zaragoza/palacio_de_la_aljaferia.html


Fonte para este post: wikipedia.org

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